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The Sun Through A Telescope - Green Sleep


A música por vezes é mais que apenas belas melodias. Existe uma regra na música pop que diz que uma música é boa quando cumpre um de dois requisitos: faz dançar, ou faz cantarolar. Mas fora do universo da música pop, onde a música é Música, capitalizada, a Música é mais simples, e por isso mais complexa. nesse universo imenso a Música nasce do silêncio, e no jogo constante entre o silêncio e o som, procuram-se criar atmosferas, emoções, ambiências, que vão além do cantar ou dançar. A Música é uma experiência pessoal, artística, individual. É Arte.

Recentemente, tive oportunidade de ouvir esta banda The Sun Through A Telescope, que lançou dois EP's em conjunto, edição em cassete e digital apenas, que funcionam como um único disco. Feito de ruído, viagens, ambientes que se desvendam ao longo da visão do seu autor, e que quase no final do segundo EP nos oferece esta semi-pérola. Aqui, é-nos oferecido quase um repouso, uma melodia que deambula por uma paisagem maquinal, que na voz nos oferece laivos de Humanidade, mas uma Humanidade quase letárgica, adormecida, derrotada talvez... Um tema a descobrir, de uma obra densa que merece mais audições.

Marduk - Dracul Va Domni Din Nou In Transilvania


Pretendo aqui falar duma música de Marduk. Neste pequeno trecho de 5m37seg, esta banda dá-nos a conhecer a lenda segundo a visão histórica de Dracul e Vlad seu filho. Os seus feitos guerreiros impressionaram de tal modo a população que as suas atrocidades, crueldade, vitórias e feitos nas guerras que travaram criaram lendas. Lendas que passaram de boca em boca através dos séculos, criando mitos que perduraram durante centenas de anos. Mitos que Bram Stocker, escritor do de finais séc.XIX, usou para criar a personagem principal da sua obra-prima de 1897 "Dracula". Neste livro e nas centenas de livros, filmes, séries, músicas e outros produtos a imagem de Dracul e Vlad ficou sobejamente conhecida e retorcida, mas os Marduk evitam entrar no mito dos vampiros e dão-nos antes a visão histórica dos homens por detrás do mito. Com o seu war black-metal, com um riff quase punk que se torna extremamente catchy, esta banda transporta-nos para a antiga Roménia do séc. XV, e envolve-nos em toda a rudeza e crueldade das antigas guerras medievais, mostrando-nos o carácter corajoso e cruel de tão ilustres guerreiros.

"Seven years of age is he and already in bloody war
His eyes do not turn away from all that death and gore"


Estes dois versos são sobejamente reveladores de como tais caracteres se moldam, e de como por detrás de todos os mitos, por mais sangrentos e cruéis que sejam existe sempre um sofrer, traumas que podem devolver um pouco de Humanidade aos Homens por detrás dos mitos. e é isso que os Marduk nos dão. Os Homens por detrás do Mito, não entrando em devaneios literários por mais sedutores que eles sejam. Afinal... Tal como esta música nos mostra, mesmo retirando a fantasia, um Mito será sempre um mito, e as suas vidas serão sempre sedutoras, sem ser preciso mais nada que não... a Realidade.

E se alguem quiser ler a letra vão a procura no Dark Lyrics, poderão ver como nascem os Mitos, e ter uma visão de como e o porquê nascem os mitos.

Bob Dylan - Baby Please Don't Go



Em 1935, Big Joe Williams compôs e gravou esta música, que com o passar dos anos se tornou um clássico do blues e rock, tendo já mais de 1000 versões sido feitas, de Van Morrison a AC/DC.

Mas se calhar, mais do que apenas mais uma cover, esta versão acaba por ser histórica, porque esta foi uma das primeiras gravações, de um jovem chamado Robert Zimmerman, que em Dezembro de 1961, num quarto de hotel no Minnesota, gravou esta canção, entre várias outras dedicadas a Bonnie, provavelmente a sua namorada da altura. No ano seguinte, este jovem iria gravar o seu disco de estreia, e com o passar das décadas, já com o nome artístico de Bob Dylan, tornou-se um dos (ou O) grandes nomes da música popular do séc. XX. No inicio foi assim... 50 anos depois, a música é completamente diferente, e Bob Dylan foi o maior revolucionário nestes 50 anos. É muito interessante ver como foi o seu início.

Virgin Black - Lacrimosa (Gather Me)



Há bandas que quando começam, têm um poder e peso apenas possível a adolescentes ainda com todo o fulgor da juventude. Depois com o tempo e a maturação, com o desejo de experimentar e variar, com a evolução natural de quem não quer ficar parado no mesmo sítio, acabam por mudar o som, geralmente para algo mais calmo.

Os Virgin Black fizeram exactamente o oposto! Quando começaram eram um banda que misturava música clássica, com gótico, doom, e alguns laivos de black metal ou música electrónica, mas nunca foram uma banda muito pesada. Até que...

Em 2008, inserido numa trilogia (que já lá vão 5 anos, sem nunca se ter visto a luz à primeira parte), sai para os escaparates "Requiem - Fortíssimo". A terceira parte de uma trilogia, que supostamente deveria ser ouvida em simultâneo. E nesta ultima parte, os Virgin Black fizeram um disco denso, cheio de distorção e vozes cavernosas. E esta Lacrimosa... esta Lacrimosa possui um peso e ao mesmo tempo uma beleza apenas disponível a bandas de eleição.

Ansiando desesperadamente, já há 5 anos, a primeira parte desta missa funerária. A parte que teoricamente deveria ser toda tocada por uma orquestra e coros.

Triptykon - My Pain



Confesso que só hoje ouvi este disco. Ainda não com muita atenção, uma singela audição com repetição de algumas faixas. Mas assim de repente, ainda sem ter crescido o suficiente dentro de mim, esta é a faixa que mais me despertou a atenção.

Muito mais calma que o resto do disco, pelo menos, sem distorção, e salvo erro, sem a voz desse monstro que é Tom G. Warrior, "My Pain" destaca-se no disco. E destaca-se muito bem. Um lick hipnótico programado, que se repete ao longo de toda a faixa, e vozes de fundo a dar uma ambiência que convida ao sonho e divagação. Quando entra a voz feminina, somos de repente elevados e enlevados por uma misteriosa sensação de conforto tépido, que deambula nos nossos sentidos, fazendo-nos desfrutar de toda a beleza do ambiente criado. Véus sonoros que nos embalam a mente. E como se tal sugestão sonora não fosse já por si suficiente, aquele ritmo da bateria que mais parece trip-hop, aquele lick que se repete e repete, e nos arrasta numa espiral de sensações acolhedoras, e aquela voz... Eis que perto do final somos mais uma vez encantados, desta vez por uma voz masculina, (que penso não ser Tom G. Warrior, mas que de  repente até parece Phil Anselmo no disco de Jarboe), e aquela voz quente, grave, penetrante, entra no todo tépido e queima os nossos sentidos desprevenidos numa chama incandescente apenas com o poder reservado da sua voz.

Um exercicío brilhante, por um dos maiores compositores europeus. Provavelmente não será uma música com grande rodagem, mas será sempre interessante ouvir numa noite quente de Verão enquanto se fuma um cigarro ao ao livre, olhando as estrelas no céu. De preferência sem luzes citadinas a atrapalhar.

Jorge Palma - À Espera do fim



Gravado em apenas uma via, ou seja, um microfone, que grava voz e piano ao mesmo tempo, "Só" é um disco à parte na discografia de Jorge Palma, é o best of que afinal nem é bem um best of. É pegar nas canções de Palma, despi-las, deixa-las cruas, orgânicas, com a voz a sussurrar, com o sangue a jorrar nas veias sob a pele quente, com os dedos a criarem magia sobre o teclado... E criar um monstro da música nacional! Um dos melhores discos de sempre, um marco que para sempre será um expoente máximo da música nacional.

E no meio de todas aquelas maravilhas do disco, houve uma música que logo se destacou, destacou de tal forma, que mesmo depois na masterização se elevou um pouco o som, se lhe deu um toque extra na compressão, que num caso normal até seria um crime, mas neste caso específico até prefiro ver enquanto a constatação que sim, esta era mesmo a música que melhor ficou no disco.

No meio de uma carreira ímpar na música nacional. Um disco. No meio de um disco especial, único, brilhante. Uma canção. No meio de uma canção... A Humanidade! Brilhante? Não. Algo mais...

John Lennon - Working Class Hero



John Lennon. Considerado por muitos como o grande génio da música do sec.XX, este senhor foi autor de algumas das mais belas músicas do século passado, quer na banda que o deu a conhecer ao mundo (The Beatles), quer a solo, que quer se goste ou não de admitir isso, é onde se encontram as suas maiores pérolas. Não falando do supra popular "Imagine", quase que unânimemente considerada a música mais popular de todos os tempos, a sua obra a solo possui momentos capazes de arrepiar qualquer ser humano com um minimo de sensibilidade. E este exemplo que pretendo falar, não querendo afirmar que se trata da sua obra-prima, decerto que pouca gente poderá ficar chocada ao afirmar que aqui, John Lennon consegue com um poder de sucintividade so possivel aos grandes génios descrever na perfeição um momento na vida de cada um de nós, e levar esse sentimento para o mais amplo da questão social da sua época. Musicalmente a musica só não é pobre porque é duma beleza, intensividade e raiva notáveis. Deixando todo o ênfase na letra e na emotividade da voz, o músico da-nos uma música acustica de apenas um acorde, não perdendo tempo com acordes, harmonias e tudo o demais que poderia retirar o sentido daquilo que a música realmente representa: o medo, a raiva, o desespero, a incógnita do Futuro de um jovem, as suas causas, a hipocrisia da sociedade que cria estes individuos, largando-os numa selva disfarçada de civilização. Talvez nenhuma palavra consiga descrever isto tão bem como a própria letra, e é isso que aqui vou deixar para todos vós, num exercicio de tradução.


"Assim que nasces fazem-te sentir pequeno
Tirando-te Tempo, em vez de to darem todo.
Até a Dor ser tão grande que deixas de sentir.

Magoam-te em casa, e batem-te na escola,
Odeiam-te se és esperto e desprezam um burro,
Até ficares tão confuso que não consegues seguir as regras.

Torturam-te e assustam-te durante 20 estranhos anos,
E depois esperam que escolhas uma carreira
Quando não consegues funcionar e estás cheio de medo.

Mantêm-te anestesiado com religião, sexo e televisão,
E achas-te tão esperto, sem classe e livre.
Mas para mim não passam da merda duns saloios.

Ainda te dizem que podes chegar ao topo,
Mas primeiro tens que aprender a sorrir enquanto matas,
Se quiseres ser como os gajos da zona chique."


Aqui não meti o verso do refrão, a ideia era mesmo mostrar a genialidade em tão poucas palavras, daquele que é na opinião da maioria dos melómanos, considerado o maior génio da música pop do sec.XX. Percebam o porque, e esta é só uma das grandes músicas que este senhor deixou para a Eternidade, antes de ter sido assassinado a porta da sua mansão por um fã, que se sentiu traído ao ver que enquanto ele cantava a revolta dos "heróis da classe média" contra o poder estabelecido da hipocrisia, o próprio vivia no maior luxo que o dinheiro pode comprar (até os caixotes do lixo eram de ouro). Ironias do destino?

Theatre Of Tragedy - A Rose For The Dead




Há mais de uma década atrás, quando o metal europeu se começou a expandir sonoramente, deitou mãos do gótico, uma ideia musical já bastante antiga, cheia de floreados, cheia de uma estranha beleza escura. E as mulheres começaram a tomar conta dos microfones, todas com vozes etéreas, quentes, sensuais, para enlevar os ouvintes no doce abraço negro de belezas obscuras.

No inicio era a Liv. E se a Anneke dos The Gathering era e ainda é o grande nome das senhoras no metal melódico, a senhora Liv Cristine, era por aqueles tempos com os seus Theatre Of Tragedy, um nome incontornável. Pessoalmente, ainda continuo a preferir os Theatre daqueles tempos a todas as bandas que se seguiram, e a todas as bandas que já existiram de senhoras a cantar góthic metal. A Rose For The Dead consegue exemplificar muito bem porque.

Uma melodia fantástica, uma voz que nos enche o peito, o contraponto da voz masculina a grunhir, aquela guitarra que se passeia num lick denso, o teclado que qual sombra branca ilumina todo o conjunto... Uma das melhores musicas do género. A matriz que foi imitada e explorada ao ponto da caricatura, mas sem nunca atingir tal beleza, tal intensidade, tal negritude...

Rosa Negra - Fado Ladino




No meio da febre recente pelo novo fado, muita coisa fica de fora. Este disco foi editado cedo demais na minha opinião, ninguém lhe ligou nenhuma. Passados cinco anos, só se ouve fado nas rádios e nas televisões, parece que Portugal de repente acordou novamente para ele. mas como sempre nestes histerismos colectivos, muita coisa é atropelada, e esta canção mereceria muito mais do que o desconhecimento generalizado. Sim... Esta música tem algo de ilegal, muito de ilegal até. É um plágio descarado duma canção turca (salvo erro, já não me lembro bem de quem é o original, e também não fui procurar), mas para o que nos interessa, isso acaba por ser irrelevante. O que fica é uma melodia fenomenal, arranjos de um bom gosto tremendo, de uma beleza serpenteante, uma dança sonora de uma sensualidade quente, etérea... No fundo, aquilo que o fado tem de melhor, mas actualizado. Não por o "velho fado" ser obsoleto, a música quando é boa nunca é obsoleta, mas pegando em todas as ferramentas à disposição e criar algo superior. Ok... Não foi criar, foi copiar, roubar. Mas até ai é um fado perfeito, porque o fado também não é mais que uma reinvenção de musica oriental, árabe. E estes Rosa Negra fizeram um excelente trabalho nisso.

No meio de toda a nova vaga de fado, com ou sem plágio, esta é a mais bela reaproximação ao fado no séc. XXI.

Iced Earth - Dracula




No sempre constante desfilar de novas músicas que saem no mercado, por vezes sabe bem voltar atrás no tempo. A primeira vez que ouvi esta música, tinha menos dez anos em cima, a vida era outra. Mas a sensação que tive ao ouvir esta música, essa, mantém-se imútavel.

Esta música pode analisar-se em 4 partes. A música na introdução e a sua letra. E a segunda parte da música e a sua letra.

Na introdução é uma balada, e que bela balada. Um lick delicado na guitarra, uma voz quente e sussurrada, melódica. Uma beleza pop, no mais puro sentido da palavra. A letra... A letra é um belo poema de perda de amor. Ideal para qualquer pessoa com mal de amores.

"Do you believe in love?
Do you believe in destiny?
True love may come only once in a thousand lifetimes...
I too have loved...they took her from me,
I prayed for her soul....I prayed for her peace

When I close my eyes
I see her face, it comforts me
When I close my eyes
Memories cut like a knife"


Na segunda parte, uma música tipicamente heavy metal com um ritmo acelerado, riffs cortantes, solos melódicos, voz poderosa. E a letra enfim desvenda-se. É uma música sobre o mito de Drácula. pois esta música pertence a um disco temático, sobre personagens de ficção de horror.

E no meio? Bem... No meio é a explosão mais explosiva que se pode imaginar! Relembrem ou descubram!!!!

Diabolical Masquerade - Ravenclaw




Num estilo que procura ser o mais estremo possível, por vezes são editadas musicas com um sentido quase pop que são uma agradável surpresa. Servem apenas para nos mostrar que o black metal não é um estilo apenas de violência, extremismo e intensidade quase insuportável. É também um estilo de beleza, uma beleza quase pura, primordial. E esta "Ravenclaw" é um excelente exemplo disso. Bebendo bastante de Bathory, pega na tradição musical nórdica, e junta-lhe a intensidade do melhor metal extremo. Com uma melodia serpenteante, que cresce em intensidade, que rasga os nossos sentidos com uma simplicidade desconcertante. A música, seja ela de que estilo for, deveria ser assim. Bela e cativante.

Scott Amendola Band - Masters Of War (Bob Dylan cover)

Existem dezenas, talvez centenas, de grandes músicas que falam da guerra. No período áureo da música popular no séc. XX a guerra do Vietname estava no auge, e como tal toda a gente tinha algo a dizer. Mas no meio de todas essas músicas, no meio de tanto que se escreveu e cantou, entre tanta gente que em tantos momentos alguma vez quis dizer algo sobre a guerra, há uma canção que se destaca. Uma canção simples, com uma letra simples, que consegue atingir a verdade do que é a guerra. Não tivesse sido ela escrita pelo Profeta, um miúdo, que armado de uma guitarra e uma ingenuidade surpreendente, cantou a melhor música sobre a guerra que alguma vez alguém escreveu. Porque nessa singela letra estava toda a verdade do que é e para que servem as guerras. Falo claro está de Bob Dylan, e a sua fantástica e genial "Masters Of War". Se algo há a dizer da sua genialidade, basta propor-vos um desafio, ouvirem a musica, e prestarem atenção na letra. Incrivelmente actual, apesar de ter sido escrita há quase 50 anos. mas como disse, Dylan nessa música conseguiu atingir o cerne, o coração do que é a guerra.

Existem um sem número de versões dessa música. geralmente bastante fiéis ao original, apenas melhor interpretadas, como é apanágio de quem faz versões de Dylan. Mas a versão que vos trago, foge bastante do original. Antes desfaz a música e transforma o que é uma simples música folk, numa viagem hipnótica em tons de free-jazz. Uma bateria sincopada, que marca todo o ambiente da canção, uma voz feminina que deambula quase hesitantemente no inicio, e uma guitarra que entra sorrateira para encorpar a canção. Depois disso, a música cresce e cresce até ao delírio final, acompanhando a intensidade da letra, que cresce até à apoteose final.

Fazer versões de Dylan é um exercício que praticamente todos os nomes grandes da história da música fizeram. Falamos claro, daquele que é provavelmente o melhor compositor de sempre da música rock. Mas geralmente os artistas cingem-se á música, que por mais bela que seja acaba sempre por ser apenas o leito onde a letra se deita. Nesta versão, a Scott Amendola Band, pegou naquilo que é mais forte em Dylan, a letra, e fez a sua versão a partir dela. O resultado é avassalador.


My Dying Bride - For My Fallen Angel

Chover no molhado… não sei quantas vezes já eu falei desta música, nem sei quantas vezes até já escrevi desta música. Mas sei que esta é das melhores músicas jamais escritas por um ser humano. De tanto CD que gravo com músicas soltas, é certo e sabido, esta está na maioria dos CDs. No mp3 nunca de lá sai. Já ouvi esta música milhares e milhares de vezes, e de cada vez que a ouço, a minha espinha arrepiasse, os meus olhos cerram-se, o meu espírito enche-se, transborda de um sentimento estranho.
Não é apenas a sua beleza, nem é apenas a sua intensidade. Não, não é apenas isso. É algo mais, algo mais que esta música possui, que nos entra na alma, nos dilacera, mexe e remexe no mais íntimo dos nossos sentidos. Duma forma tão simples, tão pura, tão etérea, esta música toca num qualquer sentido obscuro, e deixa-nos a nu, despidos de todo o exterior, esmagados na mais pura essência que dela emana.
Um teclado, um violino, uma voz, e uma letra… Assim se faz uma das mais belas experiências que o ser humano pode sentir. Sentimento na sua mais pura forma. Beleza no seu expoente máximo…


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Jeff Buckley - Hallelujah

Antes de Leonard Cohen ter tido a sua voz “destruída” pelos inúmeros cigarros fumados, tinha uma voz suave e cândida. Mas quando compôs esta canção, já a sua voz tinha a densidade dos anos.
Anos depois, inúmeras interpretações depois, um jovem de voz cândida, suave e angelical interpretou essa canção e conseguiu diferenciar-se de todas as outras interpretações.
Reduzindo a canção quase ao mais básico, fez-se acompanhar de uma guitarra eléctrica deambulando por paisagens etéreas e colocou todo o ênfase na voz. Naquela voz pura, angelical, sussurrante, que agride de tão frágil e poderosa que é.
O que ficou foi uma interpretação memorável, porque a voz frágil e poderosa de Jeff Buckley é o veículo perfeito para as emoções encerradas nesta composição. Um misto de fragilidade e poder. Um fascínio hipnotizante por algo que queremos ser mais forte que nós, uma entrega incondicional, o sentir-se humilde e frágil e ao mesmo tempo protegido e forte. O render-se a uma esperança de salvação, com a consciência que podemos ser destruídos. Não, “Love is not a victory march”. Todos sabemos isso, todos sabemos que “It's a cold and it's a broken Hallelujah”, mas poucas vezes quanto nesta canção esta certeza é tão violentamente cravada na nossa alma.


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Celtic Frost - A Dying God Coming Into Human Flesh

Existem poucas bandas com o culto dos Celtic Frost. Também existem poucas bandas com a sua influencia, importância e qualidade. Oriundos do mais improvável dos países europeus (Suíça), nos anos '80, a sua forma de estar na Música revolucionou por completo o underground europeu, e formaram juntamente com os Bathory e os Venom as bases daquilo que mais tarde se veio a denominar black-metal, muito embora, o seu líder Tom G. Warrior já tenha confessado que detesta black-metal, a sua busca nunca foi uma qualquer ideia de extremismo sonoro, visual ou lírico, mas sim expandir a Arte musical além dos limites em que estava estrangulada, e para si o termo extremo tinha mais a ver com "alem do normal" que propriamente "fora do normal". Pormenores...

A dada altura os Celtic Frost separaram-se, e em 2006, aquando do seu regresso (antes de se separarem novamente o ano passado), o album "Monotheist" foi recebido com a curiosidade devida a quase duas décadas de ausência, duas décadas em que o seu culto cresceu na proporção em que as suas sementes lançadas também cresceram, ou seja, depois do nascimento, maturação e dispersão do black-metal. Na altura talvez ideal, no momento em que o black-metal já estava a se reencontrar com a filosofia original dos seus criadores, mais centrado na expansão de ideias que propriamente em se centrar na mesma ideia de extremismo que já estava a ficar saturada (ou não).

Faixa 3 do disco, A Dying God Coming Into Human Flesh. O seu início é fantasmagórico, calmo, assustador, uma voz que canta quase que murmurando numa cadencia que cresce, não duma forma audível, mas sente-se um crescendo, uma tensão, como uma ameaça prestes a explodir, mas uma ameaça inatingível, como que fora deste mundo, ou como diz a letra, um frio... Um frio que toma conta de tudo, um frio que se torna tudo... "And all is cold. And cold is all."...
E de repente... um acorde explode! E nessa altura já estamos embrenhados na música, no lick de guitarra que nos embala, no peso da guitarra que nos prende, no peso que nos esmaga, na voz que nos dilacera enquanto nos encanta... e quando a bateria começa a voar já perto do fim, e a voz nos repete "I am a dying God, coming into human flesh" não podemos deixar de pensar que esta talvez seja uma viagem assimétrica da jornada de Dante. Aqui não começamos no Inferno para chegar ao Paraíso, aqui começasse no Paraíso e caímos que nem anjos perdidos no fundo do Inferno. Pelo menos durante 5m39s...

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Kristin Hersh - Your Ghost

É comum encarar-se uma canção enquanto uma coisa "morta". Depois dela ser gravada, editada, geralmente é assim que ela fica para a posteridade. mas as canções são entidades vivas, que se vão mudando, alterando, construindo ao longo do tempo. Será que sempre bem? Há canções que ao fim de alguns anos a serem tocadas ao vivo são coisas completamente diferentes, mas por vezes nem demora muito tempo a mudarem, e pior, há canções que vivem tanto de um momento, um singelo momento irresistível de quando foram gravadas, que por vezes é complicado repetir a sua magia.
A música de que hoje quero falar não está em nenhum disco, a versão final é um dueto entre Kristin Hersh e Michael Stipe dos REM, a versão de que quero falar é a versão da demo, a versão gravada antes do disco.

É óbvio que o esqueleto é o mesmo, a música é a mesma. mas nesta versão, despida ao mais puro da sua essência musical, a música tem um encanto que na versão final não tem. A música está o mais simples possível, respira, consegue assim, despojada de artifícios (ou pelo menos, com o mínimo possível) atingir o âmago daquilo que pretende. Uma música de uma beleza simples, que consegue dizer tudo o que quer... E principalmente, consegue fazer-nos sentir a música!

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Current 93 - Sunset (The Death of Thumbelina)

já aqui falei de Current 93, mas não podia deixar de falar aqui também desta música, numa abordagem completamente diferente da anterior música que falei.

As premissas continuam as mesmas, simplicidade, voz e letras. mas em vez do ritmo quase industrial cheio de distorção, nesta música a ambiência é feita com uma guitarra acústica, dedilhada, repetindo ad eternum o mesmo riff, na melhor forma folk. O pormenor que aqui mais dá nas vistas, é um violino que se expressa, no final de cada frase, oferecendo ao todo uma aura elegante, misteriosa, quase mágica.
Uma música de uma beleza muito especial, ideal para ouvir nestes dias cinzentos, com o vento e a chuva a beijarem a janela.

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Current 93 - Black Ships Ate The Sky

A simplicidade é complicada. Mais até que fazer uma música cheia de acordes, com muitas notas, muitos ritmos complicados. Fazer uma música simples, directa, e principalmente, boa, é muito complicado.
David Tibet, um músico obscuro, prima por composições simples, baseadas principalmente na beleza intrínseca de certas harmonias, de certas melodias. E embora pessoalmente não conheça muita coisa do seu vasto reportório, o pouco que conheço é simplesmente divinal. E no meio desse pouco que conheço, há uma música que prima pela diferença. Simples, muito simples, um baixo e duas guitarras. sempre a mesma nota, sempre o mesmo acorde, sempre o mesmo ritmo, atacado sempre no tempo certo. Uma das guitarras deriva por paisagens sujas ao melhor estilo de rock alternativo e sujo, mas isso é irrelevante. A música é sempre aquele ritmo industrial, e a letra, a voz, numa pungente e pujante interpretação. Intenso, poderoso, hipnótico. Capaz de nos esmagar... Brilhante!!!

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Strapping Young Lad - Bring On The Young

Silêncio... Condição essencial para existir música. A música não passa duma dança entre o silêncio e o som, nas suas diferentes alturas e intensidades.
E é assim que começa esta música, silenciosamente, hesitantemente, uma guitarra tímida, arriscando umas notas, um baixo que entra aqui e ali e se deixa ficar, ecoando, prolongando o seu poder até ao limite do silêncio... E depois...
depois entra a voz, cantando, uma ténue melodia vocal, uma promessa, um murmúrio...
A dada altura entra a bateria, o som enche-se, há mais intensidade, a voz crispa-se, sem nunca perder a melodia, há aqui promessas de uma grande música... Uma guitarra distorcida, impõe um ritmo mais demolidor fugazmente... Sim.... A música promete... Há coros, há poder, há melodia, e há sempre a promessa de explosão, uma explosão hesitante....
E essa explosão acontece, mas nunca se deixa ficar, são momentos fugazes, entre-cortados por silêncios, uma viagem sufocante entre o silêncio e poder destrutivo do death metal...

A música versa sobre a guerra do Iraque, e que melhor banda sonora que esta? O medo, o silêncio, a tensão, com momentos fugazes de explosão, intensidade, violência...

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ìon - Beyond The Morning

Duncan Patterson é um dos melhores compositores de SEMPRE! A afirmação pode parecer exacerbada, mas conhecendo, mesmo superficialmente, a carreira deste irlandês, a afirmação só pode ser atestada sem margens para dúvidas.
Começando a sua carreira nos Anathema enquanto baixista, foi aí que Duncan começou a se aventurar na composição, e os seus primeiros passos foram mais do que promissores, e ao fim de poucos discos, já tinha em seu nome alguns clássicos, algumas músicas simplesmente arrebatadoras, e acabou por se aventurar com um amigo numa outra aventura, Antimatter. Aí, o seu culto solidificou-se, e quando abandonou a banda, e finalmente deu à luz estes Íon, o seu projecto mais pessoal de sempre, não houve nenhuma surpresa na beleza que o disco de estreia emanava...

"Beyond The Morning" é a última música do disco "Madre, Protégenos", e é o encerrar perfeito. Folk puro, beleza refrescante, uma guitarra deambulante, um piano subtil, e uma voz feminina arrepiante... uma melodia de uma beleza rara, a fragilidade das emoções rasgando cada recanto do nosso ser. O que estes quase 3 minutos nos dão é uma viagem pelas emoções mais puras da nossa alma (Íon é a palavra gaélica para pureza), como uma salvação, como a luz no fim do túnel, não enquanto promessa mas enquanto certeza. É o descanso do guerreiro, a aceitação final e definitiva do nosso ser. Uma música capaz de nos salvar, capaz de nos beijar a alma... uma música rara...

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(desisti de procurar no You Tube, a partir de hoje vou passar a usar o Mega Upload ou o Rapid Share para poderem sacar as músicas de que aqui falo, abram as vossas mentes, os vossos corações, as vossas almas... descobriram novos mundos de uma beleza arrepiante. promessa)

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