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Palantir - Pisces and Cancer II



Conhecem aquela sensação de descobrir uma música fabulosa? Daquelas músicas que logo á primeira vos atinge no âmago, e que sabem imediatamente que será uma música a ouvir para o resto da vida? Pois preparem-se, e agucem o vosso bom gosto. Terão essa experiencia dentro de momentos.

A banda? Palantir! Escusam de procurar na base de dados da vossa mente, a banda é novíssima, não tem passado, é uma one-man-band, e o miúdo tem 25 anos, nunca tocou em nada que se visse, e vive num recôndito estado da América profunda. Gravou um disco, um singelo disco (e todo ele é brilhante), e fechou o disco com esta canção, porque é este o caminho que quer seguir no futuro. Esta canção destaca-se, não por ser muito diferente do resto, mas porque com esta canção conseguiu atingir aquele estado especial, apenas disponível a algumas canções. Não tem nada a ver com o som, com a qualidade musical, com a profundeza, com nada disso que faz uma boa canção. Porque há boas canções e depois há coisas assim: canções boas, com tudo o que faz uma boa canção, mas com o extra de tudo encaixar, tudo fazer sentido, desde o primeiro som que nos agarra, até ao último fade-in e silêncio final. Cada pormenor, cada som, cada instrumento que entra, cada nota, tudo é assim porque nem faria sentido de outra forma. Tudo nos leva numa viagem sonora que nos agarra pelo espírito dilacerado e nos atira aos céus, á estratosfera.
É aquele lick, que promete, promete muito, parece vento que cresce, são os pormenores de notas que pairam, fantasmagóricas, tensão… E entra aquela voz, à Burzum, o vento cresce, inflama-se parece que vai queimar, explodir… mas não… entra um novo lick de guitarra, suave, ameno, belo, reconfortante… beleza transcendente, a voz sempre em baixo, sempre adivinhando-se, nunca se insinuando, embalando, rasgando friamente o todo, prometendo tempestade, negro, mas apenas dá lugar aquele som quente e tépido da guitarra. Luz! É um jogar constante entre luz e sombras, quente e frio, uma luta entre o bem e o mal. E quem ganha? Ganha aquela guitarra acústica, que no fim aparece, acalma o todo, dança com o calor da guitarra eléctrica, antes desta se calar, e canta-nos solitária no fim antes do silêncio final… Nem faria sentido de outra forma. Um poema musical.


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Anathema - Untouchable, Part 1



Confesso que é a minha banda favorita há já alguns anos. A banda que me excita antecipadamente com nova música porque é quase certo que só pode sair genialidade. Mas confesso também que quando saiu o Hindsight, uma espécie de best of com releituras acústicas das músicas com cordas, apanhei uma grande desilusão, estava muito àquem do que já os tinha feito ao vivo, o estúdio matou a emoção. E confesso também que o último disco, demasiado adiado, demasiado aguardado, para mim é provavelmente o pior disco da sua carreira. 

Mas dentro de pouco mais de um mês há novo disco, e já ouvi as duas músicas que já foram lançadas. E se o primeiro lançamento ficou novamente a saber a muito pouco, quando comecei a ouvir esta Untouchable, Part 1, os primeiros minutos quase quase me fizeram ter a certeza que os Anathema, tal como todas as bandas da história da música, já tinham passado o seu auge, e já estavam na parte descendente da sua carreira. Não era muito grave, acontece a todos, até aos génios como os Anathema, só génios que morrem aos 27 anos ficam com o talento cristalizado, quem segue essa coisa chamada vida, tem tendência para continuar a evoluir, e quando o que está para trás é irrealmente brilhante, tudo o que sai de novo tem tendência para soar pálido, e muitas vezes isso nem tem a ver com a música em si, tem a ver com a ligação emocional que nós, enquanto ouvintes, temos com a música que foi lançada. 

Mas... a partir dos 3 minutos, mesmo sem nenhuma ligação emocional, nenhuma história, esta música cresce e cresce e cresce. Não, nunca fui consolado por esta canção, não tenho nenhuma ligação emocional com esta música, estou a ouvi-la pela primeira vez neste preciso momento (pela segunda enquanto escrevo), e duas coisas me assaltam a mente. Primeira, os Anathema ainda são a melhor banda do mundo, e o novo disco ainda tem a promessa de ser brilhante e genial e de nos acompanhar por muitos e bons anos, ainda teremos história e ligação emocional com estas músicas, ainda são uma banda que promete que um novo disco seja um marco nas nossas vidas que nos acompanhará por muitos anos, com músicas que nos farão sentir e emocionar. Segunda, como é isto possível? Como é possível que uma banda com mais de vinte anos, que já mudou radicalmente o seu som, que já tem a história que tem, ainda tenha o condão de nos emocionar, surpreender, desiludir e novamente fascinar? Como é possível que vidas passadas (sim, porque já foi noutra vida que os conheci), ainda seja uma banda fresca, em constante evolução e principalmente, que nos consegue fazer segui-los, como se fossem um amigo que está sempre ao nosso lado, ou um amor eterno com a capacidade única, sim única, de mudar, evoluir, e levar todos os seus fãs atrás, enlevando-os no seu abraço de pura genialidade musical? 

Não há nenhuma banda na história da música mundial com este condão. Ninguém mudou tão radicalmente, evoluiu tão constantemente, e manteve a sua base de fãs pregada e fascinada no que continuam a fazer, mesmo 20 anos depois.

Certa vez, há uns anos, li algo sobre os Anathema, que a pior coisa que se pode dizer deles é que são a segunda melhor banda de sempre de Liverpool. Sim, isto é a pior coisa que se pode dizer deles. Mas um amigo meu, cinquentão, professor de música, disse-me certa vez assim "Pois para mim são a melhor." Sejamos honestos, há bandas com a carga mítica e intocável de serem "das melhores bandas de sempre" The Beatles, Led Zeppelin, Queen, The Doors, Nirvana, Pink Floyd... São sempre as mesmas, e todas elas têm os números de vendas por trás que lhes dão um estatuto inabalável. Os Anathema não poderão nunca atingir esse estatuto, a não ser que de repente o mundo fique justo e vendam 20 ou 30 milhões de discos de repente, mas dessas bandas míticas, quantas têm a carreira tão certa, brilhante e fenomenal dos Anathema? Quantas revolucionaram a sua Arte duma forma tão constante e brilhante? Durante tanto tempo? Pink Floyd, mais nenhuma. Meus amigos, estarão os Anathema a caminho de se tornarem das melhores bandas de sempre? Pois é mais que óbvio que já são, façam favor de ser justos e comecem a mete-los naquela lista exclusiva, comprem a porra do disco, estes gajos merecem milhões e milhões de discos vendidos. Melhor banda do mundo? Actualmente sim, mas isso já começa a parecer pouco...

F.O.D. - Acona Batata




Talvez seja melhor começar por explicar a história desta música.
Esta musica não tem história. É apenas um simples exercício, um treino, levado a cargo por um produtor de nome Daniel Cardoso, aquando da inauguração do seu estúdio UltraSound Studios. De modo a expandir a sua técnica enquanto produtor, resolve misturar o imisturável: musicais da Disney com death-metal. Cria uma banda fictícia, e brinca um bocadinho com os seus instrumentos, convida alguns amigos, e sem mais nada que não apenas a inspiração, experimentação e improviso... Cria uma pequena-grande obra-prima.

Tudo começa duma forma bastante plácida: uns teclados bonitos, uma voz suave, algo muito familiar, muito... Disney, podendo ser cantarolado por petizes e graúdos. E de repente... Um riff demolidor, pesado, avassalador, acompanhado por uma voz grunhida, imprópria para consumo por mentes inocentes ávidas pelo entretenimento inócuo do universo Disney. O resto da música continua sempre nestes dois extremos, mas de uma forma brilhante, musical, melódica, pesada, extrema e com muito bom gosto (excepto no humor desenfreado da parte final da música, mas não nos podemos esquecer que isto é uma brincadeira de jovens imberbes ou pouco mais que isso).

Se esta música foi um teste ás capacidades de Daniel Cardoso, não admira que de lá para cá, o seu estúdio se tenha tornado um dos mais requisitados em Portugal, que tenha produzido já inúmeros nomes de um estatuto lendário, e que inclusivamente neste momento seja o baterista dos monstros sagrados Anathema. É que quando o talento é realmente genuíno, ele nota-se em tudo, até em pequenas brincadeiras de estúdio, que nunca seria suposto sair de uma gaveta.

Aleah - Breathe



Por vezes há pequenos tesouros escondidos no meio de uma imensidão de ruído. Nunca tinha ouvido sequer falar de Aleah, e uma rápida e fugaz consulta através do You Tube deu-me a descobrir algo que está muito perto do maravilhoso. O único senão é que as músicas acabam por ser demasiado semelhantes entre si, mas isso pode até ser positivo no disco, pode até ser que o disco funcione como um disco deve funcionar, como uma viagem constante e hipnótica. A ver... Mas assim de repente, uma voz e um som sedutor.

Nine Inch Nails - Hurt



Esta é uma canção, e uma versão muito peculiar, para não dizer única.
Aqui, temos o autor de uma música, a ter que competir com uma versão magnifica, popularizada por um outro interprete. A quem pertence afinal a canção? A Trent Reznor, que é afinal o seu autor, ou a Johnny Cash, que a fez sua com uma interpretação avassaladora? Esta versão, tira todas as dúvidas, e é o exemplo-mor de uma verdade universal, tantas vezes esquecida: uma canção não pertence a ninguém em particular, é uma entidade viva, sentida e interpretada à sua maneira por quem quer que seja, autor, interprete, ou mero ouvinte.
Uma canção magnifica, e isso é o que é mais importante. Duas leituras magníficas, intensas, esmagadoras. E para quem acredita que a versão do Cash é imbatível... Confessem... O autor consegue fazer-vos hesitar nessa afirmação, ou não?

The Doors - She Smells So Nice

Não é excitante quando uma banda antiga, que já faz parte da história, divulga assim vindo do nada uma nova música, que andou perdida anos e anos em fitas perdidas sabe deus aonde? Pois desta vez, calhou aos Doors, divulgarem uma música já com 40 anos, perdidas nas fitas originais das gravações do disco L.A. Woman. E o que se poderá dizer desta nova canção agora divulgada? Bem... Pouco se poderá dizer, não é que vá fazer alguma diferença no mito dos Doors e de Jim Morrison, esse está alicerçado já há bastantes décadas, e não é esta música que o irá aumentar e diminuir. Apenas poderemos dizer que é uma faixa que se ouve bastante bem, com um ritmo groovy, não tão bluesy como outras músicas do mesmo disco, nem psicadélica como outras, uma singela canção, interessante de se ouvir, mas que qualquer fã hardcore dos Doors pode passar bem sem ouvir. Apenas pela curiosidade.


Ala dos Namorados - Loucos de Lisboa

Uma canção, ao contrário de uma música, precisa de uma letra. E para uma audiência massificada, a letra é mais importante que a música, porque a maioria das pessoas nem sequer sabem música para a poderem apreciar. Embora, como é óbvio, a música para ser sentida não necessita de ser entendida. Mas a letra é uma parte muitíssimo importante de uma canção, isso é inegável. E geralmente as músicas mais populares, têm sempre letras que dizem algo ao ouvinte, algo por vezes de tão profundo e emocional, que só mesmo uma canção, cantarolável, pode passar essa emoção, de outra forma inacessível por palavras sem o vínculo emocional da melodia.
É o caso desta Loucos de Lisboa dos Ala dos Namorados. Esta canção tem algo de nostálgico, algo de poético até. Quem nunca conheceu um louco, que se arrasta por anos nas mesas de um café? Aquelas personagens que fazem parte de uma cidade, conhecidas por toda a gente, com uma presença que dá colorido e pitoresco à vida quotidiana? Todos os conhecem. E ao ouvir esta canção, dá vontade de lhes passar um cigarro para os dedos, pagar-lhes uma bica, e ficar a ouvir histórias que dariam para um livro…. Ou melhor…. Uma canção pop cantarolável…


Thragedium - The Flame of Draconis

Há bandas que se perdem cedo demais. Quando aparecem, o seu choque e poder é de tal forma avassalador, que a promessa de um futuro gigantesco talvez seja demasiada pressão.
Quando em 2001, um ex-guitarrista de Desire, lança o disco de estreia da sua nova banda, Thragedium, a sua mistura de doom metal com música tradicional portuguesa é uma pedrada num charco que ameaça tornar-se um oceano. Porque não basta utilizar uma guitarra portuguesa ou um cavaquinho, é fazer música brilhante com elementos novos, que adicionam algo muito maior à sua música. É a certeza que com tal registo, com tais músicas, com tal talento, um novo caminho está aberto de par em par para se trilhar, cheio de promessas de novos grandes discos, novas grandes canções…
Infelizmente, tal oceano vazou logo depois do disco seguinte, a banda separou-se, e a única coisa boa que daí adveio, foi mesmo estes dois registos que ficaram… Para matar saudades de vez em quando…



Descendants Of Cain - This House (feat. Wayne Hussey)

Aquando da primeira audição do disco, esta não foi a música que mais me despertou a atenção. Mas com o passar do tempo, a sua melodia ficou-me cravada na mente, pegajosa, mas com uma suavidade tremenda. Sinal inequívoco de que é uma música viciante. E quando as músicas se pegam na mente, como lapas, é só por duas razões: ou por serem muito más, ou por serem muito boas.
Neste caso específico, tenho a certeza que é pela segunda razão. Atentem no refrão, esta dança das teclas com as cordas, esta voz que se faz vento e nos embrenha com um poder avassalador. Não se sentem em casa? Naquela casa que eles construíram, em que as paredes são ambição… se todas as músicas pegajosas fossem assim…

Ancestors - Neptune With Fire

A emoção de descobrir uma nova canção, uma nova banda, é como uma droga: provoca um tal prazer, um misto de surpresa com deleite, que apenas uma pergunta nos quebra essa satisfação. "Como nunca tinha ouvido isto?". E ao fim de duas ou três audições, parece que sempre conhecemos as músicas, e começamos a lembrar outras bandas e outras músicas que nos lembram do som descoberto. Neste caso especifico, faz-me lembrar uns Iota que em vez de blues andaram a ver o DVD dos Pink Floyd em Pompeia, com um interlúdio directamente bebido da obra prima dos Green Carnation "Light of Day, Day of Darkness".

Mas como disse... O prazer da descoberta de uma música, de uma banda, é como uma droga... E depois do efeito surpresa passar, depois de ouvir em loop a música, começa a ressaca, e a eterna pergunta: "Que mais música haverá por ai para eu ouvir?". É que o negócio da Música é bastante injusto, eu nem sei quem é o Justin Bieber, mas já ouvi falar dele milhares e milhares de vezes, e a curiosidade de ouvir é nenhuma, mas esta banda, que hoje tão agradável surpresa me deu... Nunca tinha ouvido falar....

Ai... A partir dos 14 minutos... Anjos esvoaçando... Deleite para os ouvidos... Até à próxima ressaca...




Inverno Eterno - Lembrando os Mortos

Há algo de mágico nesta banda. A frieza do black-metal é extrapolada muito além do normal, e a sua poesia tétrica, é acompanhada por um arrastar fúnebre do seu som, que confere uma ambiência mágica, mórbida, irresistível…
Esta “Lembrando os Mortos”, primeira faixa do seu mais recente álbum, é um excelente exemplo. Um manto sonoro frio, lúgubre, mórbido, onde a poesia se deleita em visões de saudade e nostalgia, criando um ambiente mágico e deprimente.
Um passeio num cemitério num entardecer outonal. Um Fado nostálgico que dói como se chamas de gelo nos queimassem a pele…

The Beatles - Come Together

Esta é uma excelente música para perceber o porquê dos Beatles serem das melhores bandas de sempre. Nesta música, logo ao primeiro segundo fica claro que esta não é uma música normal. O ritmo, bamboleante, compassado, psicadélico, apanha-nos imediatamente, e por baixo desse trabalho de bateria simples e de excelente execução o grande segredo dos Beatles. O baixo de Paul McCartney: poderoso, som irrepreensível, cheio, viajando num slide que faz parte dos cânones da música do século XX. Depois há a voz de John Lennon, sim, e há a guitarra de George Harrison, sim. Há um quarteto dos melhores músicos do século passado, e dois dos melhores compositores que o rock já viu nascer. Sim, há isso tudo, mas o grande segredo dos Beatles, aquilo que fez a diferença entre serem uma grande banda e terem sido A banda, foi o sorteio que Paul perdeu. Quando ficaram sem baixista, e com três guitarristas, alguém tinha de tocar baixo, o parente pobre das bandas rock, e como ninguém queria tocar baixo, e ninguém queria entrar para uma banda de putos sem futuro, entre os três guitarristas fizeram um sorteio, quem perdesse tocava baixo. E a fava calhou a Paul, o melhor guitarrista dos três. E aquilo que eles não sabiam nem sonhavam, é que o baixo é o instrumento mais importante duma banda rock, sempre foi, sempre será, mesmo que ninguém ligue a isso, e aquela banda de 4 miúdos, ficaram com o melhor baixista deles todos. Perderam um grande guitarrista, mas ganharam a eternidade.



Otep - Thots



Opressiva… Uma atmosfera opressiva, doentia, alucinante. Um lamento que rasga todos os sentidos, atmosfera de pesadelo, vertiginosa angustia… um demónio que aconchega o seu sufoco na voz murmurada, na letra alucinada, poética. Este pode ser muito bem o som do silêncio no Inferno. E só por isso… Bela!

The Sun Through A Telescope - Green Sleep


A música por vezes é mais que apenas belas melodias. Existe uma regra na música pop que diz que uma música é boa quando cumpre um de dois requisitos: faz dançar, ou faz cantarolar. Mas fora do universo da música pop, onde a música é Música, capitalizada, a Música é mais simples, e por isso mais complexa. nesse universo imenso a Música nasce do silêncio, e no jogo constante entre o silêncio e o som, procuram-se criar atmosferas, emoções, ambiências, que vão além do cantar ou dançar. A Música é uma experiência pessoal, artística, individual. É Arte.

Recentemente, tive oportunidade de ouvir esta banda The Sun Through A Telescope, que lançou dois EP's em conjunto, edição em cassete e digital apenas, que funcionam como um único disco. Feito de ruído, viagens, ambientes que se desvendam ao longo da visão do seu autor, e que quase no final do segundo EP nos oferece esta semi-pérola. Aqui, é-nos oferecido quase um repouso, uma melodia que deambula por uma paisagem maquinal, que na voz nos oferece laivos de Humanidade, mas uma Humanidade quase letárgica, adormecida, derrotada talvez... Um tema a descobrir, de uma obra densa que merece mais audições.

Marduk - Dracul Va Domni Din Nou In Transilvania


Pretendo aqui falar duma música de Marduk. Neste pequeno trecho de 5m37seg, esta banda dá-nos a conhecer a lenda segundo a visão histórica de Dracul e Vlad seu filho. Os seus feitos guerreiros impressionaram de tal modo a população que as suas atrocidades, crueldade, vitórias e feitos nas guerras que travaram criaram lendas. Lendas que passaram de boca em boca através dos séculos, criando mitos que perduraram durante centenas de anos. Mitos que Bram Stocker, escritor do de finais séc.XIX, usou para criar a personagem principal da sua obra-prima de 1897 "Dracula". Neste livro e nas centenas de livros, filmes, séries, músicas e outros produtos a imagem de Dracul e Vlad ficou sobejamente conhecida e retorcida, mas os Marduk evitam entrar no mito dos vampiros e dão-nos antes a visão histórica dos homens por detrás do mito. Com o seu war black-metal, com um riff quase punk que se torna extremamente catchy, esta banda transporta-nos para a antiga Roménia do séc. XV, e envolve-nos em toda a rudeza e crueldade das antigas guerras medievais, mostrando-nos o carácter corajoso e cruel de tão ilustres guerreiros.

"Seven years of age is he and already in bloody war
His eyes do not turn away from all that death and gore"


Estes dois versos são sobejamente reveladores de como tais caracteres se moldam, e de como por detrás de todos os mitos, por mais sangrentos e cruéis que sejam existe sempre um sofrer, traumas que podem devolver um pouco de Humanidade aos Homens por detrás dos mitos. e é isso que os Marduk nos dão. Os Homens por detrás do Mito, não entrando em devaneios literários por mais sedutores que eles sejam. Afinal... Tal como esta música nos mostra, mesmo retirando a fantasia, um Mito será sempre um mito, e as suas vidas serão sempre sedutoras, sem ser preciso mais nada que não... a Realidade.

E se alguem quiser ler a letra vão a procura no Dark Lyrics, poderão ver como nascem os Mitos, e ter uma visão de como e o porquê nascem os mitos.

Bob Dylan - Baby Please Don't Go



Em 1935, Big Joe Williams compôs e gravou esta música, que com o passar dos anos se tornou um clássico do blues e rock, tendo já mais de 1000 versões sido feitas, de Van Morrison a AC/DC.

Mas se calhar, mais do que apenas mais uma cover, esta versão acaba por ser histórica, porque esta foi uma das primeiras gravações, de um jovem chamado Robert Zimmerman, que em Dezembro de 1961, num quarto de hotel no Minnesota, gravou esta canção, entre várias outras dedicadas a Bonnie, provavelmente a sua namorada da altura. No ano seguinte, este jovem iria gravar o seu disco de estreia, e com o passar das décadas, já com o nome artístico de Bob Dylan, tornou-se um dos (ou O) grandes nomes da música popular do séc. XX. No inicio foi assim... 50 anos depois, a música é completamente diferente, e Bob Dylan foi o maior revolucionário nestes 50 anos. É muito interessante ver como foi o seu início.

Virgin Black - Lacrimosa (Gather Me)



Há bandas que quando começam, têm um poder e peso apenas possível a adolescentes ainda com todo o fulgor da juventude. Depois com o tempo e a maturação, com o desejo de experimentar e variar, com a evolução natural de quem não quer ficar parado no mesmo sítio, acabam por mudar o som, geralmente para algo mais calmo.

Os Virgin Black fizeram exactamente o oposto! Quando começaram eram um banda que misturava música clássica, com gótico, doom, e alguns laivos de black metal ou música electrónica, mas nunca foram uma banda muito pesada. Até que...

Em 2008, inserido numa trilogia (que já lá vão 5 anos, sem nunca se ter visto a luz à primeira parte), sai para os escaparates "Requiem - Fortíssimo". A terceira parte de uma trilogia, que supostamente deveria ser ouvida em simultâneo. E nesta ultima parte, os Virgin Black fizeram um disco denso, cheio de distorção e vozes cavernosas. E esta Lacrimosa... esta Lacrimosa possui um peso e ao mesmo tempo uma beleza apenas disponível a bandas de eleição.

Ansiando desesperadamente, já há 5 anos, a primeira parte desta missa funerária. A parte que teoricamente deveria ser toda tocada por uma orquestra e coros.

Triptykon - My Pain



Confesso que só hoje ouvi este disco. Ainda não com muita atenção, uma singela audição com repetição de algumas faixas. Mas assim de repente, ainda sem ter crescido o suficiente dentro de mim, esta é a faixa que mais me despertou a atenção.

Muito mais calma que o resto do disco, pelo menos, sem distorção, e salvo erro, sem a voz desse monstro que é Tom G. Warrior, "My Pain" destaca-se no disco. E destaca-se muito bem. Um lick hipnótico programado, que se repete ao longo de toda a faixa, e vozes de fundo a dar uma ambiência que convida ao sonho e divagação. Quando entra a voz feminina, somos de repente elevados e enlevados por uma misteriosa sensação de conforto tépido, que deambula nos nossos sentidos, fazendo-nos desfrutar de toda a beleza do ambiente criado. Véus sonoros que nos embalam a mente. E como se tal sugestão sonora não fosse já por si suficiente, aquele ritmo da bateria que mais parece trip-hop, aquele lick que se repete e repete, e nos arrasta numa espiral de sensações acolhedoras, e aquela voz... Eis que perto do final somos mais uma vez encantados, desta vez por uma voz masculina, (que penso não ser Tom G. Warrior, mas que de  repente até parece Phil Anselmo no disco de Jarboe), e aquela voz quente, grave, penetrante, entra no todo tépido e queima os nossos sentidos desprevenidos numa chama incandescente apenas com o poder reservado da sua voz.

Um exercicío brilhante, por um dos maiores compositores europeus. Provavelmente não será uma música com grande rodagem, mas será sempre interessante ouvir numa noite quente de Verão enquanto se fuma um cigarro ao ao livre, olhando as estrelas no céu. De preferência sem luzes citadinas a atrapalhar.

Jorge Palma - À Espera do fim



Gravado em apenas uma via, ou seja, um microfone, que grava voz e piano ao mesmo tempo, "Só" é um disco à parte na discografia de Jorge Palma, é o best of que afinal nem é bem um best of. É pegar nas canções de Palma, despi-las, deixa-las cruas, orgânicas, com a voz a sussurrar, com o sangue a jorrar nas veias sob a pele quente, com os dedos a criarem magia sobre o teclado... E criar um monstro da música nacional! Um dos melhores discos de sempre, um marco que para sempre será um expoente máximo da música nacional.

E no meio de todas aquelas maravilhas do disco, houve uma música que logo se destacou, destacou de tal forma, que mesmo depois na masterização se elevou um pouco o som, se lhe deu um toque extra na compressão, que num caso normal até seria um crime, mas neste caso específico até prefiro ver enquanto a constatação que sim, esta era mesmo a música que melhor ficou no disco.

No meio de uma carreira ímpar na música nacional. Um disco. No meio de um disco especial, único, brilhante. Uma canção. No meio de uma canção... A Humanidade! Brilhante? Não. Algo mais...

John Lennon - Working Class Hero



John Lennon. Considerado por muitos como o grande génio da música do sec.XX, este senhor foi autor de algumas das mais belas músicas do século passado, quer na banda que o deu a conhecer ao mundo (The Beatles), quer a solo, que quer se goste ou não de admitir isso, é onde se encontram as suas maiores pérolas. Não falando do supra popular "Imagine", quase que unânimemente considerada a música mais popular de todos os tempos, a sua obra a solo possui momentos capazes de arrepiar qualquer ser humano com um minimo de sensibilidade. E este exemplo que pretendo falar, não querendo afirmar que se trata da sua obra-prima, decerto que pouca gente poderá ficar chocada ao afirmar que aqui, John Lennon consegue com um poder de sucintividade so possivel aos grandes génios descrever na perfeição um momento na vida de cada um de nós, e levar esse sentimento para o mais amplo da questão social da sua época. Musicalmente a musica só não é pobre porque é duma beleza, intensividade e raiva notáveis. Deixando todo o ênfase na letra e na emotividade da voz, o músico da-nos uma música acustica de apenas um acorde, não perdendo tempo com acordes, harmonias e tudo o demais que poderia retirar o sentido daquilo que a música realmente representa: o medo, a raiva, o desespero, a incógnita do Futuro de um jovem, as suas causas, a hipocrisia da sociedade que cria estes individuos, largando-os numa selva disfarçada de civilização. Talvez nenhuma palavra consiga descrever isto tão bem como a própria letra, e é isso que aqui vou deixar para todos vós, num exercicio de tradução.


"Assim que nasces fazem-te sentir pequeno
Tirando-te Tempo, em vez de to darem todo.
Até a Dor ser tão grande que deixas de sentir.

Magoam-te em casa, e batem-te na escola,
Odeiam-te se és esperto e desprezam um burro,
Até ficares tão confuso que não consegues seguir as regras.

Torturam-te e assustam-te durante 20 estranhos anos,
E depois esperam que escolhas uma carreira
Quando não consegues funcionar e estás cheio de medo.

Mantêm-te anestesiado com religião, sexo e televisão,
E achas-te tão esperto, sem classe e livre.
Mas para mim não passam da merda duns saloios.

Ainda te dizem que podes chegar ao topo,
Mas primeiro tens que aprender a sorrir enquanto matas,
Se quiseres ser como os gajos da zona chique."


Aqui não meti o verso do refrão, a ideia era mesmo mostrar a genialidade em tão poucas palavras, daquele que é na opinião da maioria dos melómanos, considerado o maior génio da música pop do sec.XX. Percebam o porque, e esta é só uma das grandes músicas que este senhor deixou para a Eternidade, antes de ter sido assassinado a porta da sua mansão por um fã, que se sentiu traído ao ver que enquanto ele cantava a revolta dos "heróis da classe média" contra o poder estabelecido da hipocrisia, o próprio vivia no maior luxo que o dinheiro pode comprar (até os caixotes do lixo eram de ouro). Ironias do destino?

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